Frei Ciro Aprígio Vieira nasceu em Carmo do Rio Claro, Estado de Minas Gerais, aos 7 de fevereiro de 1930. Era filho de Aprígio José Vieira e Maria da Conceição Vieira. Foi batizado em Carmo do Rio Claro, paróquia Nossa Senhora do Carmo, aos 19 de abril de 1930, pelo Pe. Francisco Tavares e crismado por Dom Ranulfo da Silva Farias, aos 16 de julho de 1930, festa de Nossa Senhora do Carmo. Fez os primeiros estudos em Carmo do Rio Claro. Entrou para o Seminário São Fidélis de Piracicaba, pela primeira vez, em fevereiro de 1945. Saíu em março de 1947 e depois retornou em junho de 1951. Nos anos em que permaneceu fora do Seminário, cursou o ginasial em Carmo do Rio Claro no Colégio dos Irmãos de São Gabriel.
Noviciado e Profissão
Vestiu o hábito franciscano capuchinho em Taubaté, convento Santa Clara, iniciando o noviciado aos 20 de dezembro de 1954. Foi seu Mestre Frei Marcos Brevi. Emitiu a profissão temporária, perante Frei Anselmo Donei, primeiro Ministro Provincial, dia 21 de dezembro de 1955. Fez a Profissão perpétua, perante Frei Germano Chisté, em Mococa aos 22 de dezembro de 1958.
Filosofia, Teologia e Ordenação
Estudou Filosofia, em Mococa, nos anos 1956 a 1958 e Teologia em são Paulo, de 1959 a 1962. Recebeu a Primeira Tonsura conferida por Dom Antônio Maria Alves de Siqueira na Catedral de São Paulo, aos 19 de dezembro de 1959. Aos 17 de dezembro, na Catedral Metropolitana, o mesmo Bispo conferiu-lhe as Ordens Menores. Foi ordenado Subdiácono por Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, em São Paulo, aos 23 de dezembro de 1961 e Diácono por Dom Paulo Rolim Loureiro, dia 7 de abril de 1962. Recebeu a Ordenação Sacerdotal pela imposição das mãos de Dom Frei Inácio João Dal Monte, O.F.M. Cap., Bispo de Guaxupé-MG, em Carmo do Rio Claro, aos 29 de junho de 1962. Concluiu os estudos em São Paulo, em novembro de 1962 e em 1963 fez o curso de pastoral.
Ministério sacerdotal
Frei Ciro exerceu o ministério sacerdotal em São Paulo-SP, paróquia Imaculada Conceição, Pompéia-SP, São José do Rio Preto-SP, na paróquia Santíssimo Sacramento, na Vila Maceno e na Basílica Nossa Senhora Aparecida. De 1969 a 1973 foi Pároco na paróquia Imaculada Conceição, em São Paulo-SP. Nas outras paróquias foi vigário cooperador.
Missionário no Amazonas
Desde seminarista e tempos de estudante, Frei Ciro não ocultava seu ideal e desejo de ser missionário no Amazonas. Após as experiências de ministério poastoral no Estado de São Paulo, aos 28 de dezembro de 1973 partiu para as missões de Alto Solimões, no Amazonas. Aí foi cooperador, Capelão Militar do Comando de Fronteiras do Alto Solimões, com sede em Tabatinga-AM. Em1980, foi Pároco em Tabatinga e eleito 2º ; Conselheiro na Vice-Província do Amazonas. Foi transferido para Amaturá, Alto Solimões em 1993. Esteve a serviço da missão em Tabatinga e Amaturá até 2001, quando por motivos de saúde se desligou da Vice-Província do Amazonas.
Exéquias na festa de Corpus Christi
Nos últimos anos estava com a saúde já abalada, vítima de um câncer que afetou-lhe os órgãos vitais. Muito alegre de temperamento, enfrentou com galhardia sua cruz, dando enorme exemplo de paciência e resignação. No dia 29 de maio de 2002, na Santa Casa de Piracicaba, faleceu praticamente consciente e confortado pelos sacramentos da Igreja.
Às 14 horas do dia 30 de maio, quinta-feira, festa de Corpus Christi, na igreja do convento Sagrado Coração de Jesus, onde foi velado, houve missa exequial presidida pelo Ministro Providencial Frei João Alves dos Santos e concelebrada por muitos sacerdotes capuchinhos. Todos os postulantes, noviços, pós-noviços, Irmãs Franciscanas, familiares e amigos de Frei Ciro participaram da celebração. Frei José Antônio Leonel Vieira, na homilia, lembrou que “Frei Ciro foi missionário no Amazonas durante 27 anos e isso é tudo. Foi ser pai dos sem voz nem vez, dos expoliados da vida. Perdemos um irmão missionário aqui na terra e ganhamos um intercessor no céu”. Terminada a celebração foi sepultado no Cemitério da Saudade, em Piracicaba no Jazigo dos Frades Capuchinhos.
I Fioretti
Nas comemorações das Bodas de Prata de ordenação sacerdotal, em junho de 1987, Frei Mauro Strabelli, em estilo fioretti, assim escreveu sobre Frei Ciro:
“Frei Ciro é um daqueles tipos especiais que pintam lá de vez em quando numa Província. Tem uma capacidade incomum de driblar as situações difícieis e uma facilidade imensa de contornar com humor as ocasiões espinhosas.
Nos tempos de Seminário, Frei Ciro distinguia-se entre todos os seminaristas não só por ser maior e mais vivido, mas especialmente por cantar, nas Festas da Academia Divina Pastora, árias em italiano, sem saber italiano...
Era ele quem fazia a montagem para o teatro do Seminário. Os efeitos cênicos saíam de suas mãos com tanta facilidade que causava admiração, principalmente pelo material sofisticado que usava: bochas rolando pelo soalho do corredor eram os “trovões”, exigidos em cena; areia peneirada sobre folha de jornal era a “chuva”, e dois fios elétricos, desencapados, negativo e positivo que se cruzavam, eram os “relâmpagos”, apesar da ameaça de curto-circuito.
Nas salas de aula, Frei Ciro driblava também os mais ferozes professores. Estudava o suficiente, e nas horas amargas dos exames, falava, falava, mudava de assunto, subia e descia nos argumentos mais contraditórios e absurdos, provava que o sal é doce, e que o escuro é muito mais claro, que o professor o aprovava, elogiava e pedia desculpas por tê-lo chamado a exames...
As aulas de grego e de hebraico eram um campo fértil para sua inesgotável capacidade de driblar dificuldades e para testar a paciência dos abnegados professores. Pois um verbo conjugado pelo frei podia ser considerado de qualquer tempo ou modo ou conjugação. Difícil detectar a raiz e as desinências: era um proposital emaranhado de cipó gramatical que os professores confundiam-se também... Um perfeito podia ser um futuro, e um presente na voz ativa podia valer também como aoristo médio...
Durante os anos de estudo de Filosofia, Frei Ciro contornava com humor o rigorismo das leis conventuais. Como um “Professor Pardal” de hábito, ele encontrou o jeitinho de esconder um aparelho de rádio dentro do guarda roupa, de tal modo que quem abrisse a porta do dito móvel poderia encontrar roupa ou rádio; isso dependia de seguir ou não as “normas” de orientação ditadas pelo inventor. Também a gaveta de sua escrivaninha era uma das maravilhas do mundo antigo: aberta, ligava um rádio; fechada, desligava-o. E um prego, coberto com um pouco de cera na cabeça, desfazia todos os vestígios do possível crime... Nem o Sherlok descobriria.
Famosa foi a atuação de uma equipe de “mágicos” durante uma Festa em Mococa. Frei Ciro era o “orientador técnico” e o “chefe da iluminação”! A mágica a ser apresentada: dois violinos que tocam sozinhos! Frei Ciro montou o cenário: bastidores negros, cortinas negras, chão escuro. Dois personagens vestidos de preto, pintados e maquiados de negro, tocavam dois violinos branquíssimos, com arcos branquíssimos. E para dar maior credibilidade à “mágica” Frei Ciro mandou dois holofotes de luz contra os olhos da pláteia... A mágica tinha que dar certo mesmo... Não se sabe se alguém viu os dois violinos...
A “vida” de Frei Ciro é uma antologia de “casos”. Para finalizar lembramos que ficou célebre, entre os frades, em Rio Preto, quando apresentado a um compacto auditório de jovens como “o Conferencista Frei Ciro”, ele - ao levantar-se - se auto apresentou dizendo: “Bem! Eu não sou propriamente um conferencista. Atualmente sou mais um reflexionista...” (Coisa que ninguém soube dizer, e nem ele o que seria...”).
Frei Ciro cunhou também muitas expressões que ficaram durante muito tempo na vida estudantil e ainda hoje estão por aí: “Ramanastacha” que pode significar tudo o que você quiser em qualquer tempo, momento, situação. E ao seu barco, na Missão no Amazonas, deu o nome de “CHILIP-CHILEP” uma referência onomatopaica aos goles de cachaça em suas rodas de amigos. Ao povo dizia que era um nome inglês.